terça-feira, 17 de agosto de 2010

assim falou meu transe

são os castrados
os compassivos saudosistas que enxergam o ralo
que perpetuam o frígido orgasmo da impotência
afim de rebaixar tudo que tem espírito

depois adjetivam a palavra como se fosse um docinho
esquecendo nas vísceras da ressonância
que a poesia se movimenta no corpo da língua

sons agora dançam no turbilhão da imagem
encarnada e sem destino...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

o segundo verso
é só matéria diante tudo que esqueço

ode vagabunda cheia de ódio
te abandonei pelo ócio
por minha irresponsabilidade incestuosa

não resta dúvida
o silêncio barulhava na janela do carro

pleno de sombra
oco de telhado

há uma cor em mim reclamando sua partida

nem do que sou me sujo
barco azul ancorado no lodo
peixe nadando de banda

palavra tem que ser brinquedo em minha boca

luxúria de girino
erva-doce

trago lua escondida nos olhos

chicotinho-queimado

na infância da alma
aquarela que chora

...

quero um desenho com gosto de neve
uma língua salpicada de delírio antes que anoiteça
a fome do belo colorindo o fosco

melodia onírica pra combater a monotonia do mundo
rimbaud criança com suas iluminações imperfeitas

anseio do esquecimento sua morada
fantasia geringonça na cabeça

girassol do instinto no orvalho desta hora

quarta-feira, 7 de julho de 2010

...

gralha esqueceu cachecol na árvore
dentro da sombra
convalescente do silêncio que morre

espiritualizo distância

mandioca na boca da terra

beijo com fome invisível

por isso respiro
transtornado o declínio
das castidades suntuosas

quinta-feira, 24 de junho de 2010

toda escrita é porcaria

eu nao sou um daqueles escritores sentimentais
do tipo mia couto pra ficar morando em lisboa
com o pé da palavra atolado em moçambique
quero te contar uma história
daqui mesmo de meu terreiro
sem precisar fazer pose
papai matou o galo
depois bebeu o sangue
e disse que era gostoso
foi na venda de seu messias e encheu a cara
mamãe ficou brava e o expulsou pra fora de casa
ele arranjou uma amante e fabricou nela nove crianças
oito morreram e a única que sobrou
ficou sendo eu que te conto esta história
hoje tenho trinta anos
cato papelão nas ruas de são paulo
e estou escrevendo este livro que nunca vai ser publicado
minhas influências não são das mais diversas
não li maiakóviski e nem acho roberto piva um puta poeta
andei mexendo no lixo
na sacola dos versos
que nasceram adulterados pela vida
penso que estou me tornando melancólico
igual as goteiras do telhado
quero mais que minha vida se exploda
e que leve junto estes garranchos
eu que nunca vou adorar escritor como se fosse santo
sei que qualquer idiota escreve
e depois que ganha prêmio
fica bem mais vaidoso e é um porre

quinta-feira, 17 de junho de 2010

...

este poema nasceu predestinado
a ser posterior a minha existência
que na doença de outros lençois
deixa aristocrático o risco

transtornada e corpulenta
a dor surreal desta amargura
na traquinagem nômade da língua
me deixou apaixonado por este intelecto broxa