quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

pobre-cia

empurra-empurra lá dá creme/ era o funk sexista da rua nove
na esquina a quentura complicada de existir
dentro daquele apartamento explosivo repete
se come calado e vai botando comida por demais na boca engasga
isso de indústria cultural
é que nem poesia concreta - enganação completa
o poeta batendo punheta à serviço (à ser vício) da propaganda
tudo uma grande  merda (!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

santa dor que me invade

o mesmo texto
nunca o mesmo fato
como se fosse o casarão da memória
a graduação dos espantalhos
com suas túnicas sujas de sangue me deixou besta
o chápeu do imperador boiando no absoluto
o abraço sanguessuga de meu ócio romântico
faria uma escolha mal feita
o herói que satirizou a estrada - meia chaga
o morto na garupa da motocicleta que carrega um saco
infantes fumam pedra duas vezes na cinelândia
e você vem com perguntas esburacar meu ego
digo que nada adianta
que a dor que me invade é santa
é santa a dor que me invade ouviu 
deusa profana que me quebrou um galho
amamenta os doze leopardos
mitológica diana
que meu orgulho noutras águas se faça sem medo
e nunca tenha modo
desastre na veia da marionete barroca

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

sequela no caminho me perdi em tantos

decidi rejeitar a ilusória dor
retirar do peito esta lembrança
colocá-la em quarto de despença até ser possuída pelo mofo
o que não consigo é investigar as coisas que amo
adjetivar as incertezas daquilo que julgo
as vezes gosto da paisagem
das manhâs que sinto uma felicidade inexplicável
noutro dia nada disso faz sentido
até o canto das aves me exaspera
o desejo se transforma em desastre
depois vira sopro
ar parado
virtude inexorável pra cada sonho
aí me deixo
terreno árido
abandono em noite sem lua
mas diante tudo
aquela mesma dor que negava reaparece
faz um reboliço insano na minha cuca
e no altar quotidiano do desespero me vence
fico ruminando derrota/ até gosto
poeta-menino sorrindo abestalhado para os automóveis que passam
depois em silêncio consigo me iludir com pranto
exaltar o risco
sequela no caminho que me perdi em tantos

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

música de sonhos surrados

o egoísmo de sua maldita solidão me deixou tonto
a sua falsa mania de mudança
é tão bestial como o sorriso de um qualquer passante

por que sei que no fundo do poço a sua vontade de conforto grita

vida arraigada num futuro que nada na cloaca do tempo

vou cuspir no olho da casa
na obesidade do fôlego e na cadeia

só me resta dizer sobre as amarras

provável que todo espanto se transformne em deboche
gosto podre/ dente cariado

outra paisagem

esquecer o caminho

abandonar o infortúnio de toda chegada

meu melhor destino nunca reclamou vitória

então fica mais suja
continua limpinha toda lógica
dentro deste apartamento deste aquário
contemplando da janela o inferno da vida alheia

senhora segurança

voz perdida/ música de sonhos surrados
silêncio tosco que não contamina

garantias que se apagam da lembrança:

a carteira de motorista/ a carreira daquela prostituta
a estante fedendo a livros/ a marca de sua blusa

ter quem paga as contas
quem bota comida na mesa

a mesma brincadeira de sempre:

sair de casa pra fazer yoga

nesta cidade careta de belo horizonte

tive um sobresalto

mais uma vez

olhos encharcados de renúncia

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

voz na embriaguez o vulto

a marca do sol revitalizando o seio

no cemitério da rotina

o estandarte

misteriosa presença já não enxerga nada

aos farrapos

sombras que pairam

no subsolo da orgia

a imagem desenharia o corpo

oferendas ao vento

metamorfose da coisa

adiante silêncio

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

chega de falsa melancolia pois o gosto da melancia ficou podre

emocionou-se a vida com os alargamentos da alma

neste instante espasmo é necessário

o desconhecido veio abordar o fôlego

fantasia sempre foi virtude neste dias banais

confesso

trago em meu corpo outra velocidade

paraíso distante

sonho e risco

pois felicidade pesou tanto

voz devia instigar o nada

sentir amor sem os escombros da moral

pra que todo entusiasmo fosse embora

sexta-feira, 25 de maio de 2012

o pintor pirata e a chinesinha vermelha

atelier em desordem como a casa de francis bacon
quadro a persistência da memória pendurado na parede

pra começar precisamos duma chinesinha de luvas azuis
vestido longo e vermelho
e um artista quase cego dum só olho usando um tampão de pirata

deitado numa poltrona suja de tinta lendo rimbaud
a campainha toca - ele sonolento custa abrir a porta

a chinesinha entra sem falar nada procurando a geladeira
atira uma bolsa de couro na cara dele
fotografias se espalham pelo chão da cozinha
ela grita que as fotos são experimentos embaçados de vida

ele nem se importa pega uma faca e começa a esfaquear uma tela fresca no cavalete
ela se aproxima e bota um vinil na vitrola
o pintor pirata esfaqueia a tela com fúria dando cusparadas no amarelo que escorre

enquanto isso a chinesinha senta na poltrona
abre bem as pernas com seu vestido vermelho decotado e sem calcinha 
e observa com gula aquele homem
de repente ela começa a esfregar melancia na xoxota

nosso artista está mais concentrado que nunca em sua obra-prima
então a chinesinha retira uma de suas luvas azuis cantarolando e amarra na coxa esquerda

o telefone outra vez toca -  o pintor pirata grita qualquer coisa - atende e logo desliga
agora senta na poltrona e aperfeiçoa o nó da luva azul na perna da chinesinha tesuda

depois enfia dois dedos num pote de tinta e passa nos lábios vaginais daquela boca
pega mais tinta e pinta o pau de verde
e começa a trabalhar lentamente naquela bunda dura e suada

o resto vai sendo inventado de improviso
contando com a criatividade visceral dos atores

porém se faz necessário um final esplendoroso pra com essa foda

que tal o pintor pirata gozar uma cachoeira de porra
como se estivesse dando um banho de mangueira na chinesinha sapeca

e depois rasgar páginas de felicidade clandestina
colando pedacinhos no corpo daquela escultura